A
Cultura como desenvolvimento humano.
Por
Katia Regina Santana.
Engraçado como, mesmo tendo conhecimento nesta área, as
pessoas a nossa volta apresentam uma dificuldade em se desligar da cultura de
massa, já que os meios de comunicação e a indústria cultural de massa usam de
artifícios para viciar as pessoas neste tipo de cultura, que, aliás, parece
entretenimento, mas é um meio para fazer com que a racionalidade humana se
torne deficiente.
Mesmo trabalhando com educação e com cultura erudita percebo
que não consigo atingir uma gama considerável de pessoas do meu circulo
familiar e amistoso, pois as pessoas estão tão viciadas nas diversas culturas
de massa que já não conseguem viver sem elas.
A cultura de massa é
aquela industrializada, fabricada pela indústria capitalista, que tem como
objetivo o enriquecimento das empresas de comunicação, bem como as de pseudo
entretenimento, ou seja, de maneira alguma poderiam enriquecer a mente humana.
A cultura de massa pode ser nociva à mente, porque faz com que
o cérebro deixe de exercer as funções neurais que naturalmente deveria exercer.
Para manter um cérebro saudável é preciso exercitá-lo, assim como os músculos
do corpo, para que não enferruje literalmente.
A
leitura de clássicos da literatura - brasileira ou estrangeira - seria um
exercício eficaz para manter a saúde do cérebro. Uma simples leitura, de contos
infantis, por exemplo, ou qualquer que seja a leitura, desde que tenha um bom
conteúdo, nos dá subsídios para sua eficácia. Além disso, alimentação saudável,
exercícios regulares e uma boa noite de sono.
Não
existe pessoa sem cultura, isso é uma falácia, todos têm culturas, no entanto o
que nos prevalece é o que nos trará melhor benefício. Mas temos que nos
preocupar com que chamamos de benefícios: a cultura de massa, por ser
principalmente entretenimento, a princípio pode parecer nos beneficiar, porque
trás felicidade momentânea, porém é preciso observar que quem é levado a gostar
de cultura de massa são alvos das ideologias.
Um
exemplo de cultura que deveria prevalecer na nossa vida é a popular, porque nos
da uma identidade e explica a nossa essência; é a cultura popular que dirá de
onde viemos e quem nós somos. Não devemos, jamais, abandonar a cultura popular.
Há quem diga que o paulistano não tem cultura popular, já que fomos
aculturados, contudo é preciso buscar nossas raízes familiares e perceber o que
nos marca culturalmente – a ascendência étnica nos dirá que cultura deveria preservar
– para que saibamos usa-las em proveito próprio.
Um
exemplo de cultura popular é a música sertaneja, aquela de raiz, e que tem suas
bases no campo, porquanto lembra as histórias, a vida no campo. Cidades
brasileiras como Santa Helena de Goiás, cidades interioranas de São Paulo e
Minas Gerais, contam as histórias e práticas culturais de seu povo nas músicas,
dando-nos subsídios, cultural e histórico – até mesmo para pesquisas – para
trabalharmos em sala de aula.
A
música sertaneja, infelizmente, se tornou alvo da indústria fonográfica e de
massa, aculturando-se de artifícios eletrônicos e instrumentos elétricos
utilizados na música rock, além da pop e hip hop. Usando também letras
excessivamente românticas – um romance que não existe na realidade – banalizando
a cultura sertaneja: perceba que as duplas, ou grupos, sertanejos ganham
milhares de reais e seus shows são pirotécnicos e luxuosos tirando a
simplicidade que é a essência do homem do campo.
É
obvio que a indústria ganha com isso e quem perde é o público: estudos mostram
que as letras das músicas pop são banais e frívolas, o que não nos força a
raciocinar sobre a nossa realidade. Ha quem diga que música é entretenimento e
não foi feita para nos induzir ao raciocínio. Mas somos seres pensantes por
isso todo artifício que alimenta o cérebro é subsídio para aumentar o
raciocínio crítico. Nós podemos unir o útil ao agradável, mas sem deixar de
exercitar o cérebro.
Quanto
mais críticos formos, menos enganados seremos e nossa sociedade crescerá
substancialmente. Para votar, para comprar, para ter serviços públicos de
qualidade temos que ser pessoas questionadoras e analíticas, portanto é preciso
absorver conteúdos culturais que contribua para isso.
A
cultura popular e erudita sempre foram utilizadas para estimular o raciocínio
crítico, bem como para o ensino nos bancos escolares. Na Grécia clássica era
por meio das peças teatrais que o povo participava da vida pública: era nas
comédias – análise da vida pública – nas tragédias – visão social e privada –
que o homem buscava subsídios para seu enriquecimento intelectual.
É
desta forma que a cultura, que é entretenimento, assim como a música, pode ser
usada como instrumento de educação e análise crítica.
Outro
exemplo de cultura popular que deve ser preservada é a indígena, porque
preserva as nossas raízes culturais assim como a nossa História: preservar a
cultura indígena – o que resta dela – é não se esquecer dos erros do passado, é
não esquecer as injustiças cometidas contra o nosso povo, é não esquecer que um
dia fomos colonizados.
Pensar
a partir da cultura indígena é pensar com simplicidade, é pensar que podemos viver
com pouco e sem causar danos ao Planeta Terra, é aprender a cuidar da natureza
e preserva-la em prol da humanidade, é saber que um dia teremos futuro e que
este futuro terá qualidade. Então por que não nos importar com tal cultura?
Porque fomos invadidos pela cultura norte americana, de massa, e nos perdemos
nos encantos dela: perceba que no dia 19 de abril (dia do índio no Brasil)
crianças do ensino fundamental desenham um indígena norte americano, por
desconhecer as características físicas e culturais dos nossos povos.
O
que nos falta? Doses intensivas de cultura popular brasileira que é
diversificada e riquíssima.
A
cultura Erudita, hoje, é mais acessível devido aos meios de comunicação e
tecnologias disponíveis, no entanto ela não é apresentada ao jovem, e a
criança, das periferias, então como ensinar a gostar deste tipo de cultura? Quem deveria apresenta-la as populações mais
simples – não vou falar aqui de população de baixa renda por me parecer
pejorativo – para que passe a apreciá-la e inseri-la no seu cotidiano? Teatro,
cinema (clássicos e históricos), músicas sinfônicas, entre outras, são exemplos
de cultura erudita que nos trazem benefícios mentais.
E
por falar em acesso, com a digitalização da televisão, os canais em HD trazem
uma programação diversificadas sendo estas de maior erudição, tais como a
exibição de clássicos do cinema e de literaturas eruditas: “Romeo e Julieta” de
Willian Shakespeare. Além disso, uma gama de canais educativos com aulas e
debates importantes para a melhoria da educação do brasileiro, não podemos
dizer, desta forma, que não há acesso.
O
problema é que a cultura de massa vicia e que os sites de relacionamentos, bem
como os equipamentos eletrônicos, ocuparam o lugar dos livros. Assistindo a um
debate no canal “TV Escola” discutia-se a falta de biblioteca nas escolas
públicas e o desinteresse das famílias na literatura. Como incentivar as
crianças à leitura se nem o espaço de leitura, outrora sagrado, está sendo
respeitado?
Nas
décadas de 1980 e 1990, nas escolas públicas, principalmente as municipais de
São Paulo, havia as aulas de leitura, em que o professor de ensino básico
levava os alunos para a biblioteca com o objetivo de incentivá-los à leitura.
Desta forma, adquiria-se o hábito de ler e que posteriormente viraria um habito
da família também. Assim era nas escolas que eu estudei e que, junto com minha
mãe e irmã – essa última já devorava livros diariamente – adquiri o habito da
leitura.
Hoje
é preciso fazer projetos de incentivo à leitura, porque já não existem as aulas
para este fim. O que eu lamento muito!
Mesmo
que exista uma parcela da sociedade que defenda o uso dos vídeos games para -
não só para entretenimento – engendrar criatividade e para melhorar a memória:
existem jogos de estratégia que realmente ajudam no desenvolvimento da psique,
no entanto não é o suficiente. Para o fomento da razão, não há dúvidas que a
leitura ainda seja primordial ao exercício da mente.
Não
podemos esquecer que tudo que foi engendrado por grupos humanos se refere à
cultura, porque cultura vem do latim cultivar (laborar), portanto o que é feito pelo homem para o homem.
A
leitura nos leva para o mundo que não conhecemos, às culturas que não
participamos e a vivência que nunca tivemos, deste modo, é impossível, para
muitas pessoas, conhecer a diversidade cultural mundial, então de que maneira
entender a cultura do outro se não pelos livros? É preciso conhecer para não
ter pré-conceito, porque o que nos torna intolerantes é justamente a nossa
ignorância.
Como
adquirir, e pensar sobre, conhecimentos sobre o que acho diferente? Como não
ter um conceito errôneo sobre aquilo que eu não entendo? É a partir da leitura
que o mundo do outro se inter-relaciona com o meu para que haja acréscimo.
A
leitura me proporciona questionar a minha cultura e conhecer a diversidade
cultural: eu pertenço há algum grupo popular? Ou melhor, qual é a minha cultura
popular? O que faz bem para o meu crescimento intelectual? Cultura de massa,
erudita ou popular?
Adquirindo
conhecimentos saberei o que é melhor para mim e para a sociedade.
“A imaginação é
mais importante que a ciência, porque a ciência é limitada, ao passo que a
imaginação abrange o mundo inteiro”
E para que nossa imaginação possa
fluir, recomenda-se uma boa leitura.