quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Consciência e Filosofia: do Senso Comum ao Senso Crítico




Consciência e Filosofia: do Senso comum ao Senso crítico.
Profa. e Psicopedagoga Katia Regina Santana.

O que é consciência? A consciência pode explicar-se a si mesma, pois é a capacidade que nós seres humanos temos de saber o que são os objetos a nossa volta, o que nós somos e por que estamos aqui. A consciência costuma ser um fenômeno entendido como parte da mente: pensamentos, imaginação, emoção.
Ter consciência é ter conhecimento de, é saber que conhece o objeto (sua essência, causa e efeito) e, muitas vezes dependendo do conhecimento, saber o porquê das coisas e analise do objeto.
Quando não temos percepção da nossa consciência a isso chamamos de senso comum, pois este conhecimento não é aprofundado, é passado oralmente de geração em geração sem crivo científico, ou seja, são conhecimentos culturais generalizados, subjetivos, pois dependendo da cultura é tido como verdade absoluta e tem um efeito de causalidade.
O senso comum é munido de pré-conceito, pois estabelece uma linha irracional. Por serem subjetivos avaliam qualitativamente as coisas conforme os efeitos que produzem em nossos órgãos dos sentidos: é estritamente emocional, por isso pode ser prejudicial aos grupos culturais dependendo da ideologia.
O senso comum é empírico, ou seja, parte do principio da experiência cultural, portanto subjetivo.

Características do Senso comum:

·         São subjetivos: variam de pessoa para pessoa e de grupo para grupo;
·         São qualitativos: avaliam as coisas conforme os efeitos que produzem nos nossos sentidos;
·         Agrupam-se ou distinguem-se conforme nos pareçam semelhantes ou diferentes;
·         São individualizadores: “achismo”;
·         São generalizadores: reúne em uma só opinião uma ideia, coisas fatos julgados semelhantes;
·         Em decorrência de generalização tendem a estabelecer relações de causa e efeito. 







Senso Critico: A atitude científica.

       A atitude científica é diferenciada do senso comum por desconfiar das nossas certezas, da ausência de crítica e da verdade estabelecida por grupos culturais ou por ideologias impostas.
       Onde vemos fatos, coisas e acontecimentos a atitude científica vê problemas e deste modo procura métodos e embasamentos para solucioná-los.
       O conhecimento científico se opõe as verdades estabelecidas pelo senso comum, porque desconfia das ideias constituídas e passadas de geração em geração.
       A atitude científica, ou senso critico, é objetiva, pois tem estruturas definidas e métodos de pesquisas: Buscam medidas e padrões, critérios e comparações: critério de medida, comprimento de onda luminosa, diferenças, intensidade, sons, enfim, é preciso uma metodologia para verificar a veracidade do objeto e dos fatos.
       A metodologia cientifica criada para a análise dos fenômenos criam leis gerais que são as mesmas para fatos que nos parecem diferentes.
       É generalizador, porque reúne individualidades sob as mesmas leis, mesmos padrões e critérios. A partir de hipóteses criam teorias que podem ser refutadas conforme o estudo aprofundado do objeto. A ciência pode ser refutada, não é uma verdade absoluta inquestionável como o senso comum.
       O trabalho científico é metódico e sistemático: existem três concepções de ciência que são a empirista, a racionalista e a construtivista. Sem um método não posso dizer que um conhecimento é cientifico.
       O senso crítico nos trás a luz da ciência sob o crivo metodológico para que possamos distinguir o verdadeiro do falso e o que é bom ou não para a humanidade.





BIBLIOGRAFIA

CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo, Ática: 2010.
COTRIM, Gilberto & FERNANDES, Mirna. Fundamentos de Filosofia. São Paulo, Saraiva: 2010.








O Conhecimento Mítico e o Etnoconhecimento





O Conhecimento Mítico e Etnoconhecimento.
Profa. e Psicopedagoga Katia Regina Santana.

Há muito se fala de conhecimento mítico, e religioso, no entanto o que se pergunta nas sociedades contemporâneas é o que é mito, visto que hoje temos o pensamento racional e científico, e o que ele representa para a contemporaneidade?
Mito são narrativas históricas que contam a origem do cosmos, de todos os corpos celestes, do homem, de seu comportamento e personalidades. O mito não pode ser descartado, porque faz parte da cultura de um povo e, desta forma, deve ser valorizado como parte da cultura popular e pedagógica deste.
O mito também é religioso porque conta a história de deuses e heróis – estes são referências para a humanidade – devido à crença em que estes possam proteger o cosmos e a humanidade, além de puni-la conforme seus ensejos[i] e desejos. 
Para os gregos o mito proferia uma narrativa para ouvintes que ansiavam pela explicação das origens, de fenômenos naturais e de si, a narrativa era tida como verdadeira, pois era um discurso autoritário, inquestionável, a verdade ortodoxa que não precisava de comprovação científica – visto que ainda não havia ciência – o mito era a verdade absoluta.
Quem narra o mito? O poeta; por que o poeta? Porque para os gregos ele é um escolhido dos deuses.  Ao poeta são mostrados os acontecimentos passados e que veja a origem de todos os seres e de todas as coisas, deste modo pode passa-las aos ouvintes. Essa é a legitimação de um profeta.
O mito é sagrado, porque vem de uma revelação divina: a mitologia é sagrada em todas as culturas devido ao fato de ser uma revelação e legitimação da religiosidade.

Função do Mito.
·         Narrativa que conta a origem das coisas e dos homens: pai, mãe das coisas, uma relação sexual que dá origem ao cosmos e tudo que há nele.
·         Encontrando uma rivalidade ou uma aliança entre os deuses: guerra entre forças divinas ou aliança.
·         Autoridade: o mito é incontestável.
·         Recompensas ou castigos: os deuses recompensam a quem lhes obedece ou castigam os desobedientes: legitimação das religiões e das autoridades políticas e religiosas.
·         O mito tem função pedagógica: as culturas usam uma narrativa histórica para exemplificar a ação de um deus, ou herói (mito do herói) para que a humanidade siga seus exemplos praticando atitudes éticas ou morais. Ex. Hércules, Ulisses, Jesus Cristo, Exu, etc.
Os mitos sobre a origem do mundo e dos deuses e dos homens são: cosmogonias, teogonias e genealogias.
Enfim, sem o mito não existiria a filosofia, pois alguém, em algum lugar deste planeta, um dia questionou o mito e deste modo nasceu o pensamento filosófico.

Etnoconhecimento.

Etnoconhecimento é o estudo científico dos conhecimentos das culturas não europeias e étnico-raciais dos povos indígenas, africanos e quilombolas. Estes estudos consistem no saber popular e na expansão destes conhecimentos para a preservação desses povos, de sua cultura e do uso medicinal, se falando de Amazônia, Brasil, das ervas já utilizadas há milênios, mais especificamente ha 13 mil anos, quando se documenta a existência de indígenas no Brasil (vide estudos da Arqueóloga Niede Guidom).
A Etnociência busca preservar a fauna e a flora local para que estes povos possam, não somente viver nestes ambientes, mas expandir as pesquisas sobre a sua cultura. Com a Etnociência nasce uma nova história dos saberes e das práticas científicas. Fala-se também de etnopreservação, pois se há pesquisas nesta área os ambientalistas, professores e pesquisadores podem preservar o que ainda não foi danificado na fauna e na flora, além de reverter, dependendo do problema, processos históricos e culturais danificados pela ação do homem branco europeu.
Considera-se também como etnoconhecimento a etno-história que são os saberes culturais, históricos de todos os povos não europeus, considerando-se a cultura como rede de crenças, valores, ideias, praticas sociais e religiosas, dos diferentes povos e comunidades humanas do mundo.
A Etnociência devolve a identidade cultural de um povo, visto que etno vem do grego Éthos, que significa identidade, origem, incluindo identidade de crenças, de valores, símbolos, mitos, ritos, morais, línguas e práticas, ou seja, costumes.
O Etnoconhecimento tira o homem europeu do centro do mundo devolvendo a identidade cultural dos povos indígenas, africanos e asiáticos, além de dar a devida importância a sua cultura.










[i] Circunstância vantajosa; ocasião oportuna; oportunidade. Minidicionário Soares Amora, Saraiva 2009.

terça-feira, 4 de julho de 2017


A Cultura como desenvolvimento humano.
Por Katia Regina Santana.


       Engraçado como, mesmo tendo conhecimento nesta área, as pessoas a nossa volta apresentam uma dificuldade em se desligar da cultura de massa, já que os meios de comunicação e a indústria cultural de massa usam de artifícios para viciar as pessoas neste tipo de cultura, que, aliás, parece entretenimento, mas é um meio para fazer com que a racionalidade humana se torne deficiente.
       Mesmo trabalhando com educação e com cultura erudita percebo que não consigo atingir uma gama considerável de pessoas do meu circulo familiar e amistoso, pois as pessoas estão tão viciadas nas diversas culturas de massa que já não conseguem viver sem elas.
        A cultura de massa é aquela industrializada, fabricada pela indústria capitalista, que tem como objetivo o enriquecimento das empresas de comunicação, bem como as de pseudo entretenimento, ou seja, de maneira alguma poderiam enriquecer a mente humana.
       A cultura de massa pode ser nociva à mente, porque faz com que o cérebro deixe de exercer as funções neurais que naturalmente deveria exercer. Para manter um cérebro saudável é preciso exercitá-lo, assim como os músculos do corpo, para que não enferruje literalmente.
A leitura de clássicos da literatura - brasileira ou estrangeira - seria um exercício eficaz para manter a saúde do cérebro. Uma simples leitura, de contos infantis, por exemplo, ou qualquer que seja a leitura, desde que tenha um bom conteúdo, nos dá subsídios para sua eficácia. Além disso, alimentação saudável, exercícios regulares e uma boa noite de sono.
Não existe pessoa sem cultura, isso é uma falácia, todos têm culturas, no entanto o que nos prevalece é o que nos trará melhor benefício. Mas temos que nos preocupar com que chamamos de benefícios: a cultura de massa, por ser principalmente entretenimento, a princípio pode parecer nos beneficiar, porque trás felicidade momentânea, porém é preciso observar que quem é levado a gostar de cultura de massa são alvos das ideologias.
Um exemplo de cultura que deveria prevalecer na nossa vida é a popular, porque nos da uma identidade e explica a nossa essência; é a cultura popular que dirá de onde viemos e quem nós somos. Não devemos, jamais, abandonar a cultura popular. Há quem diga que o paulistano não tem cultura popular, já que fomos aculturados, contudo é preciso buscar nossas raízes familiares e perceber o que nos marca culturalmente – a ascendência étnica nos dirá que cultura deveria preservar – para que saibamos usa-las em proveito próprio.
Um exemplo de cultura popular é a música sertaneja, aquela de raiz, e que tem suas bases no campo, porquanto lembra as histórias, a vida no campo. Cidades brasileiras como Santa Helena de Goiás, cidades interioranas de São Paulo e Minas Gerais, contam as histórias e práticas culturais de seu povo nas músicas, dando-nos subsídios, cultural e histórico – até mesmo para pesquisas – para trabalharmos em sala de aula.
A música sertaneja, infelizmente, se tornou alvo da indústria fonográfica e de massa, aculturando-se de artifícios eletrônicos e instrumentos elétricos utilizados na música rock, além da pop e hip hop. Usando também letras excessivamente românticas – um romance que não existe na realidade – banalizando a cultura sertaneja: perceba que as duplas, ou grupos, sertanejos ganham milhares de reais e seus shows são pirotécnicos e luxuosos tirando a simplicidade que é a essência do homem do campo.
É obvio que a indústria ganha com isso e quem perde é o público: estudos mostram que as letras das músicas pop são banais e frívolas, o que não nos força a raciocinar sobre a nossa realidade. Ha quem diga que música é entretenimento e não foi feita para nos induzir ao raciocínio. Mas somos seres pensantes por isso todo artifício que alimenta o cérebro é subsídio para aumentar o raciocínio crítico. Nós podemos unir o útil ao agradável, mas sem deixar de exercitar o cérebro.
Quanto mais críticos formos, menos enganados seremos e nossa sociedade crescerá substancialmente. Para votar, para comprar, para ter serviços públicos de qualidade temos que ser pessoas questionadoras e analíticas, portanto é preciso absorver conteúdos culturais que contribua para isso.
A cultura popular e erudita sempre foram utilizadas para estimular o raciocínio crítico, bem como para o ensino nos bancos escolares. Na Grécia clássica era por meio das peças teatrais que o povo participava da vida pública: era nas comédias – análise da vida pública – nas tragédias – visão social e privada – que o homem buscava subsídios para seu enriquecimento intelectual.
É desta forma que a cultura, que é entretenimento, assim como a música, pode ser usada como instrumento de educação e análise crítica. 
Outro exemplo de cultura popular que deve ser preservada é a indígena, porque preserva as nossas raízes culturais assim como a nossa História: preservar a cultura indígena – o que resta dela – é não se esquecer dos erros do passado, é não esquecer as injustiças cometidas contra o nosso povo, é não esquecer que um dia fomos colonizados.
Pensar a partir da cultura indígena é pensar com simplicidade, é pensar que podemos viver com pouco e sem causar danos ao Planeta Terra, é aprender a cuidar da natureza e preserva-la em prol da humanidade, é saber que um dia teremos futuro e que este futuro terá qualidade. Então por que não nos importar com tal cultura? Porque fomos invadidos pela cultura norte americana, de massa, e nos perdemos nos encantos dela: perceba que no dia 19 de abril (dia do índio no Brasil) crianças do ensino fundamental desenham um indígena norte americano, por desconhecer as características físicas e culturais dos nossos povos. 
O que nos falta? Doses intensivas de cultura popular brasileira que é diversificada e riquíssima.
A cultura Erudita, hoje, é mais acessível devido aos meios de comunicação e tecnologias disponíveis, no entanto ela não é apresentada ao jovem, e a criança, das periferias, então como ensinar a gostar deste tipo de cultura?  Quem deveria apresenta-la as populações mais simples – não vou falar aqui de população de baixa renda por me parecer pejorativo – para que passe a apreciá-la e inseri-la no seu cotidiano? Teatro, cinema (clássicos e históricos), músicas sinfônicas, entre outras, são exemplos de cultura erudita que nos trazem benefícios mentais.  
E por falar em acesso, com a digitalização da televisão, os canais em HD trazem uma programação diversificadas sendo estas de maior erudição, tais como a exibição de clássicos do cinema e de literaturas eruditas: “Romeo e Julieta” de Willian Shakespeare. Além disso, uma gama de canais educativos com aulas e debates importantes para a melhoria da educação do brasileiro, não podemos dizer, desta forma, que não há acesso.  
O problema é que a cultura de massa vicia e que os sites de relacionamentos, bem como os equipamentos eletrônicos, ocuparam o lugar dos livros. Assistindo a um debate no canal “TV Escola” discutia-se a falta de biblioteca nas escolas públicas e o desinteresse das famílias na literatura. Como incentivar as crianças à leitura se nem o espaço de leitura, outrora sagrado, está sendo respeitado?
Nas décadas de 1980 e 1990, nas escolas públicas, principalmente as municipais de São Paulo, havia as aulas de leitura, em que o professor de ensino básico levava os alunos para a biblioteca com o objetivo de incentivá-los à leitura. Desta forma, adquiria-se o hábito de ler e que posteriormente viraria um habito da família também. Assim era nas escolas que eu estudei e que, junto com minha mãe e irmã – essa última já devorava livros diariamente – adquiri o habito da leitura.
Hoje é preciso fazer projetos de incentivo à leitura, porque já não existem as aulas para este fim. O que eu lamento muito!
Mesmo que exista uma parcela da sociedade que defenda o uso dos vídeos games para - não só para entretenimento – engendrar criatividade e para melhorar a memória: existem jogos de estratégia que realmente ajudam no desenvolvimento da psique, no entanto não é o suficiente. Para o fomento da razão, não há dúvidas que a leitura ainda seja primordial ao exercício da mente.
Não podemos esquecer que tudo que foi engendrado por grupos humanos se refere à cultura, porque cultura vem do latim cultivar (laborar), portanto o que é feito pelo homem para o homem.
A leitura nos leva para o mundo que não conhecemos, às culturas que não participamos e a vivência que nunca tivemos, deste modo, é impossível, para muitas pessoas, conhecer a diversidade cultural mundial, então de que maneira entender a cultura do outro se não pelos livros? É preciso conhecer para não ter pré-conceito, porque o que nos torna intolerantes é justamente a nossa ignorância.
Como adquirir, e pensar sobre, conhecimentos sobre o que acho diferente? Como não ter um conceito errôneo sobre aquilo que eu não entendo? É a partir da leitura que o mundo do outro se inter-relaciona com o meu para que haja acréscimo.
A leitura me proporciona questionar a minha cultura e conhecer a diversidade cultural: eu pertenço há algum grupo popular? Ou melhor, qual é a minha cultura popular? O que faz bem para o meu crescimento intelectual? Cultura de massa, erudita ou popular?
Adquirindo conhecimentos saberei o que é melhor para mim e para a sociedade.

“A imaginação é mais importante que a ciência, porque a ciência é limitada, ao passo que a imaginação abrange o mundo inteiro”

            E para que nossa imaginação possa fluir, recomenda-se uma boa leitura.




terça-feira, 1 de setembro de 2015

O que Ética?

A Ética é o conjunto de virtudes morais que adquirimos com a nossa cultura, geralmente são os nossos familiares que nos passam essas virtudes, que marcarão a nossa conduta perante à sociedade. 
Segundo Aristóteles (filósofo estagirita) temos dois tipos de saber: o teórico ou contemplativo que é o conhecimento de seres ou fatos que existem independente da nossa interferência, isto é, são seres e fatos naturais. E o saber prático que são adquiridos a partir da nossa interferência, ou seja, a partir das nossas ações, portanto, depende de nós. A ética e a política são saberes práticos.
A ação é o que chamamos de práxis, esta por sua vez não se separa do agente, pois o agente (ser humano) é aquele que reproduz a ação. Por exemplo: se prático algo bom, como falar a verdade, esta ação não se desvincula de mim, pois sou o que pratico, isto passa a ser parte da minha personalidade. 
Portanto, as virtudes morais, aquilo que geralmente é o que pratico, passa ser parte de mim. Para Aristóteles essas ações são puramente racionais, é preciso ter conhecimentos, consciência, para praticá-las. 
Sem conhecimentos das causas é impossível ter certeza do que é bom ou mal. As causas, segundo a metafisica aristotélica, são a origem das coisas (ações) ou dos seres. 
Aristóteles também escreveu sobre a definição das ações éticas, ou virtudes morais, estas não são somente definidas pelas virtudes, mas também se referem a deliberação, a decisão, ou seja, escolha. Portanto posso escolher se quero fazer o bem ou não e dai definir se sou ou não uma pessoa ética: percebam que isso é totalmente racional. Uma pessoa irracional não pensa sobre as consequências dos seus atos prejudicando toda a sociedade. 
Sobre as coisas naturais não podemos deliberar, porque elas acontecem independente da nossa interferência, portanto não depende de nossas ações. é o caso, por exemplo, de um Tsunami, embora centros de pesquisas tentem prever o fenômeno, para evitar uma catástrofe, esta irá acontecer.
Deliberamos sobre o que é possível, sobre o que meus atos possam concluir. As minhas escolhas irão interferir na sociedade, por isso devo fazer escolhas éticas, pois estas são universais e farão bem para a sociedade. 
Como saber o que é bom? definindo o que é melhor para o todo, se fará bem para a maior parte da sociedade. Algo que irá satisfazer o meu ego, somente a mim, não pode ser uma atitude ética, pois é uma ação egoísta. 
Para Aristóteles a Prudência ou a Sabedoria prática, estão ligadas à vontade racional, a deliberação ou a escolha do que é bom em detrimento do que é mal, ou seja, devo partir do pressuposto que as minhas escolhas irão atingir à sociedade, portanto devo escolher o que é melhor, o que fará bem para o todo. 
 Um exemplo contemporâneo que afeta a todos nós: Entre usar drogas, que satisfará os meus desejos levando-me ao um estado de estase e prazer, e não usá-las, sabendo que isso interfere diretamente na sociedade, pois estou alimentando o tráfico destas e de armas, o que irá culminar em violências, o que devo escolher? 
O pensamento aristotélico nos chama para a racionalidade, lembrem-se da prudência, e nos faz escolher o que é melhor para o todo. 
O prudente, que perante todas as ações, é aquele que consegue julgar o que será melhor, qual atitude tomar e o que é verdadeiramente ético. Por isso a ética é universal: o bem é uma ação virtuosa em todas as partes do mundo, independe de culturas. 
Aristóteles escreveu um livro abordando este assunto que se chama Ética a Nicômaco, este último foi seu pai que era um médico estagirita. 
Neste livro Aristóteles distingui as virtudes dos vícios: as virtude são ações que constituem a excelência e a moralidade distingui-se dos vícios que são os excessos. 
Veja no quadro abaixo: 

VIRTUDES                  VÍCIOS POR EXCESSO                         VÍCIO POR FALTA
coragem                         temeridade                                                 covardia
temperança                     libertinagem                                               insensibilidade
liberalidade                     prodigalidade                                             avareza
respeito próprio               vulgaridade                                                modéstia
magnificência                  vaidade                                                      indiferença
gentileza                          irascibilidade                                             descrédito próprio
veracidade                       orgulho                                                      grosseria 
agudeza de espirito          zombaria                                                     tédio
amizade                          condescendência                                          malevolência
justa indignação.             inveja


Percebam que todos nós temos vícios, contudo alguns destes são mais prejudiciais que outros, portanto devemos ser racionais e perceber o quanto somos prejudiciais a uma sociedade quando somos indiferentes, por exemplo, à atos corruptos na sociedade ou à violência que nos assola. Pecamos por omissão. A vulgaridade ou a libertinagem podem causar doenças que afetarão a sociedade e a corrupção, além das doenças, devido a falta de estrutura social, a morte por inanição. 
Deste modo, o mínimo que devemos ser, já que vivemos em sociedade, portanto não vivemos sozinhos, é éticos, pois as virtudes morais nos levam a plenitude de uma vida qualitativa.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

A CIDADANIA NO BRASIL


A CIDADANIA NO BRASIL
            Para se falar de cidadania no Brasil é preciso explicitar a história da cidadania no mundo, a sua trajetória e como ela se deu. No entanto é preciso relembrar o texto anterior em que conto a origem da democracia participativa.  
            Os primórdios da cidadania representativa – da qual nós optamos – se dá no início da idade moderna com as ideias dos filósofos humanistas e suas teorias racionalistas. Os filósofos modernos (séculos XV e XVI) não concordavam com o regime monárquico e nem tampouco com as intervenções da Igreja Católica Romana nos governos europeus, pois ceifava a liberdade do povo segregando cada vez mais a sociedade.
            Com o apogeu do catolicismo em Roma, e no mundo conhecido, as monarquias hereditárias se tornaram cada vez mais ditatoriais e o que legitimava o seu poder era a Igreja Católica – e posteriormente a protestante – fazendo o povo acreditar que o titulo de rei provinha de Deus, ou seja, um rei era rei porque Deus quis assim. Era a ideia de direito natural.
            Com o avanço das ciências e com a evolução do pensamento filosófico os homens da idade moderna passaram a desconfiar das intempéries da Igreja Católica, bem como desacreditar do regime monárquico. Era indubitável que ideias reformadoras iriam amadurecer e retroceder à República.
            Já na Inglaterra do século XVI fora criado o parlamento – é sabido que já no século XIII, com a constituição da Carta Magna, havia um esboço do parlamentarismo -   que posteriormente iria tentar mudar seu regime político: de Monarquia representada por um rei autoritário (autocrata) para a Monarquia parlamentar, em que o rei é apenas um símbolo e quem governa junto ao parlamento é o primeiro ministro. 

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 O Parlamento inglês.   

            O parlamento inglês foi o modelo de constituição política para os Estados na modernidade, o que posteriormente seria implantado em muitos países. Era este modelo de democracia representativa que o mundo queria, em que os poderes despóticos seriam tirados das mãos dos reis e do clero e passado à representantes do povo. Não foi diferente no Brasil do século XIX com a proclamação da República.
            Na verdade a luta por um parlamento, na Inglaterra, foi árdua, feita a base de revoluções, mortes e perseguições, principalmente político-religiosas, contudo toda luta por direitos iguais ou para que se possa chegar perto disso é dificultosa, pois sempre teremos a oposição (as elites, a nobreza) que não quer abrir mão dos poderes e escravizar as minorias. Mas nunca podemos esmorecer.
             Deste modo com a constituição de um parlamento com representantes escolhidos pelo povo e com uma constituição que desse ao povo mais direitos é que se faz a cidadania. Porém é preciso lembrar que em uma constituição há também deveres e não apenas direitos.
            Foi à superioridade da lei sobre a vontade do rei, que pôs fim ao absolutismo monárquico na Inglaterra dando direitos ao povo – inclusive de cultuar a religião a que mais se adaptasse: apesar da religião Anglicana ser oficial no Reino Unido, a legislação deu liberdade de credo ao povo.
           
            No Brasil o processo de democratização dos poderes começou nos idos de 1870 com a crise da monarquia. As ideias abolicionistas, bem como a de um regime republicano e parlamentar, fora trazido da Europa por bacharéis, filhos dos fazendeiros donos de escravos, ou seja, a elite brasileira, que iam estudar fora a fim de se graduar.  
            Era um tempo de efervescência das ideias revolucionárias que culminaria na derrocada do império português no Brasil.
            Neste mesmo ano a monarquia entrou em conflito com os donos de terras e escravistas da corte, devido à promulgação da lei do ventre livre e posteriormente do sexagenário. Os donos de escravos não viram com bons olhos a intromissão do Estado nas questões econômicas e particulares da elite o que provocou o aborrecimento desta. Houve também uma crise com a Igreja devido à punição estipulada pela Igreja Católica aos maçons. D. Pedro II, influenciado pela maçonaria, solicitou aos bispos que suspendessem as punições, contudo estes recusaram as ordens do Imperador o que culminou em suas prisões.  Este episódio abalou as relações do Estado com a Igreja.
            Houve, também, conflitos com o exército e em 15 de novembro de 1889 as tropas do exército lideradas pelo Marechal Deodoro da Fonseca, revoltados com o governo monárquico, ocuparam o quartel general do Rio de janeiro implantando o Governo Provisório da República dos Estados Unidos do Brasil.
            A ideia de República era nova, portanto ainda não havia democracia, contudo fora formado um parlamento – que já existia, mas com características monárquicas – e a convocação de uma nova constituinte, o que mudaria o destino do Brasil com a expulsão da família real.  
            A chamada república velha era militar, mas também oligárquica o que fazia do Brasil um Estado com um novo regime político, porém sem democracia ou cidadania: lembre-se para que um povo seja considerado cidadão é preciso atingir os três conjuntos de direitos: Civis, políticos e  sociais.
             Graças à luta dos parlamentares ingleses o Brasil e parte do mundo, especialmente as Américas, proclamaram a república dissolvendo o absolutismo monárquico.
            Em 1888 foi abolida a escravatura, contudo os negros ainda eram submetidos a trabalhos forçados e subalternos e as minorias não tinham os direitos que hoje são exigidos na constituição de 1988.
            É imprescindível notar que o novo regime político deveria propiciar mais liberdade ao povo, mas não foi assim que aconteceu, inclusive com modelo econômico, pois quem atingiu de fato os direitos, fossem políticos ou sociais, foi à elite local, pois dispunham do capital para ter uma vida plena.
            A Inglaterra propunha ideias novas e uma economia capitalista à base da industrialização, precisava desta forma, de mão de obra barata para trabalhar na indústria e de consumidores para os seus produtos. O Brasil não era industrializado, mas tinha matéria prima para oferecer à Europa, portanto os negócios com os latifundiários brasileiros iam bem.
            Mas o restante da população vivia da economia de subsistência – fossem negros ou brancos – outros trabalhavam para os latifundiários ganhando salários miseráveis.
            Com a vinda dos imigrantes italianos para o Brasil, a fim de substituir a mão de obra escrava na lavoura, ideias anarquistas e sindicalistas começaram a efervescer nos campos e também nas cidades, o que culminou em instituições clandestinas e sindicatos em prol de uma verdadeira cidadania.
            Este movimento caracterizou a luta operária no Brasil a partir das décadas de 10 e 20. No período entre as duas Guerras mundiais o Brasil passou a se industrializar fortalecendo o movimento.
            O capitalismo trouxe enriquecimento a muitas famílias, principalmente de quem dispunha de um patrimônio, mas também segregação social para quem não tinha oportunidades. Com o crescimento das fábricas e a exploração da mão de obra, lutas por direitos iguais e melhores condições de trabalho se espalharam pelas metrópoles: as décadas de 20, 40 e 50 foram marcadas por manifestações e greves reivindicando direitos trabalhistas.
            Tivemos dois períodos de governos ditatoriais: o civil com Getúlio Vargas (1930 a 1945) e o militar (1964 até 1985). Detalharei melhor estes períodos em outro texto específico.  O período de ditadura militar foi o mais tenebroso da história em que todos os direitos foram ceifados, inclusive os da elite.
            Os governos de 1946 até 1964 foram considerados os governos democráticos: a Constituição de 1946 garantia direitos políticos, sociais e civis ao povo, escola publica de qualidade, inclusive para os filhos dos operários, e participação ativa no processo de democracia representativa. Mas com o golpe militar os direitos foram retirados e perseguições a quem contrariava o governo foram levadas as últimas consequências: tortura e morte.
            Após muitas lutas, entre classes sociais e governos ditatoriais, em 1985 as campanhas das diretas já (campanha para que o povo pudesse votar diretamente em seu candidato político em uma democracia representativa) mobilizou todo o país para que fosse proclamada uma nova Assembleia constituinte. E ela saiu do papel: a chamada Constituição cidadã que prometia direitos iguais ao povo garantindo-lhes direitos políticos, civis e sociais.
            Entretanto o acesso a políticas públicas de qualidade anda está defasado, pois em um país neoliberal e capitalista isso é muito difícil de ser alcançado, a menos que se tenha dinheiro para comprar o que se quer. Outro fator preponderante que nos leva a um déficit na qualidade dos serviços públicos é a corrupção: com o desvio de verbas fica impossível devolver ao povo – em forma de benefício social – o que se paga em impostos.
            Mesmo com tantos problemas vivemos em uma democracia que caminha para a igualdade social almejando a verdadeira cidadania que só acontecerá com a politização do povo.
            A possibilidade de uma cidadania, no sentido estrito da palavra, só será possível com uma educação política de qualidade.



REFERÊNCIAS.  
COTRIM, Gilberto. História Global, Brasil e geral. São Paulo: Saraiva 2009.
COVRE, Maria de Lourdes Manzini. O que é Cidadania. Coleção Primeiros passos. São Paulo: Brasiliense, 2005.
PINSKY, Jaime & PINSKY, Carla Bassanezi (org.). História da Cidadania. São Paulo: Contexto, 2006.

             
           
               
             
             
           




quarta-feira, 12 de agosto de 2015

O FENÔMENO DO PODER: As três formas de poder.


 Por Katia Regina Santana
Em primeiro lugar é preciso explicar o que é forma. Há um texto do filósofo Aristóteles (século III a.c) que explica o sentido das ideias (metafísica) este demonstra que formas são ideias que se estabelecem em nossas mentes devido ao empirismo, me faço explicar: empirismo é a experiência que adquirimos com o passar dos anos, portando tudo que está em nossas mentes são ideias, ou formas, que adquirimos com a aprendizagem, ou seja, tudo que sabemos tudo que apreendemos (absorvemos) ou aprendemos são ideias que provém das nossas experiências.
Neste caso, por exemplo, as ideias políticas, culturais ou a educação que nossos pais nos passam fazem parte do nosso aprendizado e de nossas experiências que são armazenadas no nosso subconsciente: o subconsciente é a parte mais importante da nossa memória, pois armazena fatos importantes.
No caso da cultura – por exemplo, a popular – esta nos da uma identidade, porque nos faz valorizar fatos, memórias e ritos que nos farão crescer em um ambiente familiar adequado para nossos filhos e, posteriormente, nossos netos para que sejam pessoas que saibam lidar com o próprio grupo cultural e passar adiante valores que possam preservar a espécie e os membros da família.
Porém existe um tipo de cultura que infecta as mentes e deteriora a sociedade, pois é silenciosa nos fazendo de fantoches para alimentar grupos de poder, tal qual a mídia, com ideologias tornando a massa alienada: é a cultura de massa industrializada, vazia e sem conteúdos.
A cultura de massa foi criada junto com a industrialização das metrópoles. É um tipo de cultura fabricada em série, ou seja, para que possa ser consumida rapidamente e depois esquecida, neste caso ganha dinheiro e poder quem é detentor desta cultura, porque a fabrica para que a sociedade se torne cada vez menos inteligente e crítica, desta forma estes grupos detentores de poder se tornam hegemônicos, manipulando as mentes das minorias. É claro que estes são as pessoas mais pobres e com menos conhecimentos eruditos, sem formação política.
Essas manifestações contra o governo são lideradas por essa classe detentora dos poderes políticos e ideológicos que não estão satisfeitas com o início da igualdade social proporcionada pelos últimos governos (Governo Lula e dando continuidade no Governo da Presidente Dilma Rousseff).
É obvio, estamos falando de um passado político em que somente as elites podiam consumir bens materiais e imateriais – conhecimento – e que somente as classes abastadas iam à faculdade. Hoje nos temos bolsa família e escola, o que proporciona para as famílias de baixa renda a oportunidade de mandar as crianças à escola ao invés de trabalhar no campo ou no semáforo. Temos o PROUNI que da oportunidade de adolescentes e adultos pobres frequentarem as faculdades públicas federais – o que por anos isso foi benefício somente das famílias abastadas (ricas). Passamos por duas ditaduras: uma civil e outra militar que duraram 55 anos, com muita miséria, inflação no patamar de 40, 30, 20% ao ano – talvez ao mês – e de uma classe dominada por forças militares e oligárquicas que não permitiam o crescimento da plebe e agora vemos manifestantes pedindo a volta da ditadura militar?
Esta classe abastada já pediu às empresas de grifes famosas que fabricassem objetos de  primeira linha, tais como vestimentas e alimentos, com qualidade inferior para que os emergentes possam consumi-los em ambientes propícios a classe C. As classes abastadas não estão preocupadas com a corrupção, mas sim com a igualdade social: a distribuição de renda é que está incomodando.
Para a manutenção de uma sociedade piramidal usa-se a cultura de massa (ideologia) para estagnar a plebe que será sempre massa de manobra e mão de obra barata.
A outra forma de poder é o econômico que também é utilizado para induzir os que não o possui a adotar determinados comportamentos: quem faz parte das classes mais baixas da sociedade acaba ficando refém dos empresários – industriais comerciantes e banqueiros – pois dependem destes para trabalhar e deste modo se submetem a humilhações – o que chamamos hoje de assédio moral – e horas de trabalhos não remunerados – mesmo que hajam leis regulamentares – proporcionando mais pobreza e menos chances de crescimento econômico. O poder ideológico padroniza ideias, valores e doutrinas enquanto que o econômico mantém o patrimônio financeiro nas mãos de poucos.
A outra forma de poder é o Político é aquele que usa a posse dos meios de coerção social, tal qual a polícia militar e as forças armadas, bem como os próprios poderes legislativo e judiciário, para manter a ordem conforme o direito vigente.
O poder político, a partir da idade moderna, utiliza-se dos poderes econômico e ideológico para fazer valer a sua força sobre a sociedade.
O poder econômico procura garantir o domínio das riquezas a partir das forças produtivas, o ideológico do consenso social e moral – por isso é preciso se preocupar com as manifestações de hoje em dia no Brasil – e o político da coerção social utilizando-se dos aparelhos de controle das massas (mídia e polícia militar), além de dominar as instituições públicas e jurídicas do Estado.  


terça-feira, 11 de agosto de 2015

A Política: Conceito e origem da palavra.


A Política: Conceito e origem da palavra.

     É muito comum, na contemporaneidade, as pessoas dizerem que não gostam de política ou que política é coisa para quem entende ou para quem seja muito sábio.
     Em primeiro lugar é preciso salientar que a sabedoria, segundo os filósofos da Grécia clássica, era algo inalcançável, pois mesmo o homem que foi considerado pelo oráculo de Delfos como o mais sábio do mundo – Sócrates – recusou este título.
     Portanto sabedoria é uma qualidade para poucos, o que quer dizer que todos nós somos capazes de compreender a política.
     A origem da palavra política vem de Polis (cidade), ou povo, que era o espaço geográfico ou o aglomerado de pessoas que debatiam as ideias em prol da melhoria de condições, ou aprimoramento, da vida social de Atenas. Na polis o cidadão (homem livre) defendia as suas ideias e discursava na Assembleia para que as ideias fossem implantadas beneficiando a todos.
     Deste modo a palavra polis se transformou em Politikós, que é um verbo, é a ação do povo em conjunto: planejamento de obras, tais como restauração de vias e edifícios, projetos de leis, enfim uma estrutura viável ao bem estar da comunidade: mais ou menos o que fazem os vereadores e deputados na contemporaneidade. Contudo, na polis grega, todos que pertenciam à classe dos cidadãos podiam participar das decisões.
     A política é muito diferente da politicagem, pois esta palavra denota corrupção. Então quando alguém fala que não gosta de política está se referindo a roubalheira, as falcatruas dos nossos representantes públicos e não à nossa participação efetiva na polis. Assim quem não gosta de política não participa e não participando abre precedentes para a corrupção, pois quem escolhe os nossos representantes somos nós, o povo, e como parte da sociedade é nosso dever zelar por ela fiscalizando os nossos eleitos. Destarte participação na vida pública é política. Corrupção, preguiça, amoralidade é politicagem.
     A pergunta mais frequente nas minhas aulas de filosofia política é: Por que hoje em dia nós não participamos ativamente, mais de perto, das decisões políticas?  O modelo de política ateniense não deveria ter permanecido? Eu gostaria que sim, mas é um pouco complexo. A história é longa, mas irei conta-la.
     Entre os séculos V a III a. C os gregos, mais especificamente os atenienses, implantaram uma forma de governo em que todos os homens livres - considerados cidadãos - pudessem participar da vida pública, contudo mesmo com a implantação da democracia (demo = povo; cracia = poder), que é uma das formas de governo, esta era imperfeita, porque como foi dito no texto anterior somente os homens livres e pertencentes à elite podiam participar dos debates e decisões públicas. Mesmo assim estes participavam efetivamente da República (Rés = coisa, Pública = do povo).
     Com o apogeu do Império romano (+ ou - 240 a 77 a.C) os gregos foram subentendidos, os romanos absorveram a sua cultura tomando também, para si, a forma de governo, no entanto implantando o Senado. O senado pertencia à elite romana – eram os patrícios, donos de terras e detentores do poder público – que controlava tudo, inclusive a política.
     Os patrícios criaram cargos públicos para organizar a cidade-Estado, institucionalizando o poder – o poder público foi institucionalizado para que houvesse ordem e eficácia na administração  – e desta forma modificaram a Democracia, que já não era perfeita, implantando a Aristocracia, que é o poder institucionalizado nas mão dos representantes públicos.
     Essa forma de governo perpassou os séculos sendo copiada na idade moderna, com o parlamento inglês, dando poder representativo aos políticos eleitos, o que significa menos participação da plebe.
     A isso demos o nome de Democracia representativa em que escolhemos pessoas que se candidatam através de partidos políticos para nos representar no parlamento – hoje chamamos de Assembleia: é o mesmo nome dado à reunião pública da Grécia de outrora.
     Com a Democracia representativa ficamos cada vez mais distantes das decisões e ignorantes quando se refere à política e seu significado. Com os meios de comunicação de massa as noticias de corrupção e antiética dos políticos que nós elegemos nos chegam mais rapidamente e se tornam mais evidentes, destarte cada vez mais pegamos antipatia por esta ação necessária ao andamento da cidade. Os prejuízos são incalculáveis, pois quanto mais distantes ficamos, mais imperfeita se torna à administração pública.
     É por isso que devemos nos inteirar a despeito do significado de política diferenciando-a de politicagem, pois só assim poderemos melhorá-la. 

Assim eram as discussões na Ágora ou no Senado romano.

 




BIBLIOGRAFIA
CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2011.  Cap. 9, p.p 430 a 450.
COVRE, Maria de Lourdes Manzini. O que é Cidadania. São Paulo: Brasiliense, 2005.
 MAAR, Wolfgang Leo. A Política. São Paulo: Brasiliense.